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Sustentabilidade não é modismo nem diferencial, mas necessidade

Um momento único e que sem dúvida vai ficar marcado na história da construção civil catarinense como um pequeno passo, mas um passo decisivo, em que o setor quer rever seu passado, adaptar-se à realidade do presente e preparar-se para enfrentar o futuro com muito mais tranquilidade e maturidade. Desta maneira, os participantes do Encontro Catarinense da Indústria da Construção (Ecic) avaliaram a realização do evento ocorrido no Centro Empresarial de Joinville no dia 21 de outubro último. O encontro, que reuniu mais de uma centena de profissionais, teve como tema central a sustentabilidade.

O tema foi abordado de formas diferentes e práticas por três profissionais escolhidos a dedo pela comissão organizadora. Eles são considerados os maiores especialistas do País quando se fala em sustentabilidade. Pela manhã, foi a vez de Israel Aron Zylbermann, atual assessor da presidência da Cyrela para assuntos ligados à responsabilidade social corporativa.

A Cyrela Brazil Realty é a maior incorporadora de imóveis residenciais do Brasil e considerada uma das empresas mais sólidas e admiradas do setor da construção civil. Nos seus 50 anos, conquistou uma marca forte: opera em 17 Estados e 55 cidades do Brasil, além de Buenos Aires na Argentina. Zylbermann, que é engenheiro e já foi diretor da Cosipa entre os anos de 1985 e 1987, o maior pólo petroquímico do País, admite que quer fazer as pazes com seu passado. “Não me orgulho de tudo o que fiz”, adverte sincero.

À tarde, os consultores Mário Francisco Giangrande e Roberto de Souza falaram sobre a aplicação prática da sustentabilidade em uma obra e a visão administrativa que esta prática precisa acompanhar. As palestras foram concebidas de forma que todos os assuntos se complementassem e trouxessem questões esclarecedoras e provocassem o debate.

A escolha do tema, segundo sempre defendeu o coordenador do encontro, o primeiro vice-presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), engenheiro Jorge Luiz Correia de Sá, não poderia ser mais atual. Jorge vai mais além e considera que nos dias de hoje é impossível se falar em construção civil sem se falar em sustentabilidade. Ele, que se empenhou tanto na organização e busca de patrocinadores e apoiadores, ficou extremamente feliz com o resultado observado no encontro. 

Jorge tem consciência de que a sustentabilidade na construção civil não é mais modismo, tampouco diferencial: é necessidade. Atualmente, quem dita as regras não são ecologistas, mas os consumidores, que desejam viver em residenciais sustentáveis e inteligentes, principalmente quando descobrem que esse uso correto acaba promovendo uma redução importante nos custos e gera economia a médio prazo.

Para que este debate se revestisse do sucesso conquistado, o Sinduscon conseguiu os apoios na organização de dois parceiros sempre presentes - a Câmara de Desenvolvimento da Indústria da Construção do Sistema Fiesc e da Associação Joinvilense dos Engenheiros Civis (Ajeci). Também apostaram na condição de patrocinadores o próprio Sistema Fiesc, a Docol Metais Sanitários, a Tigre, o Confea e o Crea/SC.

E para mostrar que está afinada com a sustentabilidade, a organização pensou em praticá-la nos mínimos detalhes, que começou com a distribuição das sacolas de panos que estão sendo usadas para estimular o uso nas compras em supermercados, na tentativa de se reduzir o número de sacolas plásticas poluidoras, aos blocos de anotações confeccionados em papel reciclado e nas canetas ecológicas usando em seus corpos tubos de papelão, plásticos e até madeira reciclados.

Momento importante em que o setor enfrenta as mudanças das relações com o mercado
 

 A mesma linha de pensamento em que se constata que hoje é impossível se falar em construção sem falar em sustentabilidade é compartilhada pelo presidente do Sinduscon de Joinville, Francisco Mauricio Jauregui. “A indústria da construção é um dos setores econômicos mais importantes do País. Tanto que apesar do adiamento de projetos de expansão em função da crise internacional, a construção civil brasileira teve lucro líquido de R$ 577 milhões no segundo trimestre de 2009. Este resultado é 3% maior do que o registrado no mesmo período do ano passado”, lembrou ele em seu discurso. Ao final do encontro, satisfeito, preferiu dizer que é “suspeito” para fazer avaliações que não sejam positivas.
 

O presidente do Sinduscon recordou também que os números são igualmente positivos quando o assunto é oportunidades de emprego, pois as estatísticas apontam que é justamente no setor da construção que o nível de emprego mais cresceu em todas as regiões do País. Números positivos que refletem o aumento da confiança do consumidor e o fortalecimento de todos os segmentos da construção impulsionadas pelo programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida e à retomada de projetos e do eterno sonho da casa própria que acompanha cada ser humano desde o berço.
 

Jauregui também lembrou da importância de o mercado estar preparado para um consumidor cada vez mais exigente, que prioriza a qualidade, o conforto, a privacidade e está atento e mais bem informado em relação a todas as etapas de um processo construtivo, incluindo o respeito às leis ambientais, uso de materiais e técnicas inteligentes de construção e medidas que proporcionarão economia.
 

Virou consenso o conceito entre os profissionais da construção civil de que a sustentabilidade não é mais modismo, tampouco diferencial, mas uma necessidade que determinará a sobrevivência. Necessidade esta não só expressada pelos ecologistas ou os profissionais com visão de futuro, mas pelos consumidores, que desejam viver em edifícios sustentáveis e inteligentes, principalmente quando descobrem que esse uso correto acaba promovendo uma redução importante nos custos.
 

Esta nova realidade veio reforçar aos empresários da construção civil a tese de que a adoção de práticas sustentáveis não inviabiliza a lucratividade do projeto e a qualidade das obras. Teses estas reforçadas durante o encontro do dia 21. “Por isso, uma mudança de atitude é fundamental, seja para estar em sintonia com a lei, seja para suprir as necessidades de um público ciente do futuro do planeta, o que acaba gerando, em consequência, um potencial impulso nas vendas e lucratividade dos empreendimentos”, reflete o presidente do Sinduscon.

 

Os Palestrantes:

O “ABRAÇADOR DE ÁRVORES” FAZ UM CONVITE À RESPONSABILIDADE SOCIAL E AMBIENTAL

Engenheiro com MBA em administração estratégica e especialização em governança cooperativa, Israel Aron Zylbermann tem um extenso currículo na área de desenvolvimento tecnológico e integra o Grupo de Estudos de Sustentabilidade do IBGE. Atualmente é assessor da presidência da Cyrela, uma das maiores incorporadoras do País, atuando nos assuntos ligados à responsabilidade social corporativa. Também é presidente da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Santos.

 Aron é um defensor da responsabilidade social e da sustentabilidade. Para ele, não há incompatibilidade em ser responsável e ganhar dinheiro. E parte de premissas simples de higiene e de qualidade de vida, usando a realidade nua e crua para alertar os empreendedores para a importância da adoção de determinadas práticas. Sua máxima “nada é mais prático do que uma boa teoria” já mostra um pouco do perfil de pessoa simples, direta e muito preocupada com a qualidade de vida de pelos menos as três ou quatro gerações com que normalmente nos deparamos e convivemos em nossa vida.

Para fazer este comparativo, ele lembra que uma pessoa que vive em média 80 anos e tenha conhecido avô e até bisavô deverá conhecer seus netos e bisnetos, o que faz com que tenhamos uma convivência em nossa passagem pela terra de pelo menos 200 anos entre nossos ascendentes e os descendentes.

Aron não é dado a meias palavras. Lembra que a vergonhosa posição do País no ranking de educação da Unesco, por exemplo, não é compatível com a riqueza do País. E cobra a função social das empresas brasileiras na mudança deste quadro.

Tanto que diz adotar uma prática bem simples para detectar o grau de respeito e responsabilidade de uma empresa com seus funcionários. “Sou um visitador de banheiros. O primeiro local que eu visito em uma obra é um banheiro”, disse para a platéia surpresa. E ainda a desafiou: não é o banheiro social, mas o banheiro usado pelo mais humilde operário.

Esta lição simples de dignidade Aron diz que leva também para seu dia-a-dia. “Por exemplo, sempre digo às pessoas que dizem que só comem em um restaurante depois de verificarem as condições do banheiro, que esta ação só é válida se for o banheiro do operário mais simples”. Caprichos? Não, apenas uma forma de mostrar que nada melhor que um banheiro limpo, o estímulo à higiene e à saúde, mesmo que em um ambiente humilde, para mostrar a dignidade humana. Ele acredita que um empresário pode ter sucesso profissional preservando os valores éticos.

Aron também gosta de uma ficção, mas não vê os filmes que prevêem o fim do mundo apenas como obras de ficção. Para ele, uma paisagem gelada como do filme “Um dia depois de amanhã” não é tão utópica assim e pode acontecer muito antes que se imagina.

Sugere que todas assistam “Uma verdade inconveniente”, do ex-vice-presidente dos Estados Unidos Al Gore e depois façam um debate. E também não dispensem uma sessão de “A Era da Estupidez”, filme que pretende chacoalhar consciências sobre a importância de lidar com o aquecimento global.

“Me acham um abraçador de árvores, mas tratar o funcionário com respeito não é ser bonzinho, é ser inteligente e evitar o retrabalho”, decretou o palestrante, para concluir que todos nós temos que lidar com essa responsabilidade sócio-ambiental, afinal, ele entende que o papel social da empresa é bíblico e só se pode ter sucesso comercial preservando os valores éticos.

“Costumo dizer que o melhor momento para plantar uma árvore era há 100 anos. E o segundo melhor momento para plantar uma árvore é hoje”, decretou.

 

NA PRÁTICA, COMO SE DÁ A INCLUSÃO SOCIAL E SE DESENVOLVEM PROJETOS ECOLÓGICOS

Mário Francisco Alves Lanzana Giangrande, engenheiro civil, pós-graduado em administração de empresas e com MBA em negócios imobiliários, é atualmente sócio, diretor-superintendente e coordenador do Comitê de Sustentabilidade de BKO S/A. Para apresentar no Ecic, ele reservou a apresentação do case Alphaville (SP), um exemplo de grande empreendimento brasileiro que vem aplicando práticas de ações de sustentabilidade.

Giangrande mostrou antes uma série de projetos sociais e culturais desenvolvidos em sua empresa, que além da valorização pessoal de todos os integrantes do grupo também resultam em ações sociais, como incentivo ao plantio de árvores, doação de sangue, campanhas de agasalho, incentivo à arte teatral e práticas esportivas.

O empresário que destaca que hoje não desenvolve nenhum projeto sem diferencial. E apresentou no encontro o Movimento Residencial Ecológico, prédios com soluções aparentemente simples de estímulo ao conforto e à qualidade de vida, mas que resultam em um enorme diferencial para quem lá vai viver.

Um dos residenciais apresentados traz como diferencial o formato em X do prédio, que adota o conceito de casa vertical, com extensão de área verde para jardim e hortas, amplas janelas e aberturas para garantir maior circulação de ar e luminosidade e espaços em comum para coleta seletiva de lixo.

Segundo Giangrande, a curto prazo um projeto deste nível pode até ser mais caro, mas ele defende que é preciso abrir mão de pequena parte do lucro para que o empreendimento tenha um valor maior no futuro. A responsabilidade ambiental se revela em espaços que a princípio são criticados, mas ele entende que é uma enorme força ao ambiente.

Embora a BKO seja criticada por reduzir o número de vagas de garagem, a empresa está firme neste propósito. Ele afirma que unidades de 440 metros quadrados, por exemplo, não terão mais cinco vagas de garagem, no máximo quatro.

E Giangrande também procurou motivar os construtores catarinenses para que pensem no futuro. Ele mesmo citou um exemplo de um empreendimento que hoje parece visionário: nas garagens está na hora de instalar tomadas para carros elétricos, pois acredita que muito em breve este tipo de veículo será comum no País e como serão carregados?
 

 O PRECURSOR DA SUSTENTABILIDADE NO PAÍS

Considerado o maior especialista em sustentabilidade no País, o diretor-presidente do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), Roberto de Souza, responsabilizou o amigo de décadas, o engenheiro Jorge Sá pela sua carreira bem-sucedida. Contou que a primeira vez que teve contato com estes desafios de qualidade e sustentabilidade foi há quase 20 anos, em Lages, em uma concorrência que ajudou o amigo a desenvolver para  construção de uma fábrica de cervejas. “Foi lá, naquelas madrugadas geladas de um feriadão em Lages que começaram a ser gestados os primeiros conceitos de controle de qualidade”, admitiu.

  De lá para cá, Souza preparou mais de 1.500 empresas para a obtenção de programas de qualidade com certificações ISO 9000, ISSO 14000, Qualihab e PBDP-H, tem mais de 100 artigos e trabalhos técnicos publicados em revistas especializadas e é autor de cinco livros técnicos.

Neste ano, sua empresa reuniu mais de 200 profissionais de todo o País em um grande encontro sobre sustentabilidade, o principal tema escolhido para encontros do construbussiness Brasil afora. Para Souza, a sustentabilidade se configura hoje em um grande movimento para enfrentar os desequilíbrios socioambientais e a desestruturação dos valores de coesão da sociedade, gerados pelas atividades humanas, especialmente as econômicas.

Por isso, acredita que a tendência mundial é de crescimento da economia verde, inclusiva e responsável, com a integração das dimensões sociais, éticas e ambientais. Observou que tem aumentado a produção de relatórios de sustentabilidade no mundo, elaborados em todos os países, por todos os setores e pelas mais diversas organizações, sendo o Brasil, atualmente, o terceiro no mundo a criar esses relatórios.

Por ainda não ter uma visão geral e integrada de suas atividades e de sua organização, o setor da construção, em todo o mundo, tem apresentado relatórios de sustentabilidade que tendem a focar questões mais técnicas quanto ao meio ambiente, considerando emissão de CO², materiais de construção, green building, consumo de água e energia, etc. Para complementar as lacunas existentes no setor, Souza destacou o desafio de encontrar indicadores de desempenho sustentável para a construção.

Ele observa que as mudanças para atingir a sustentabilidade ainda são periféricas, muitas se restringindo apenas à comunicação externa, por isso defende que é necessário aprofundar a gestão da sustentabilidade no meio ambiente da organização, analisando as práticas e fundamentando os valores empresariais com outros valores mais humanos.

A construção civil é responsável por grandes impactos socioambientais e, por isso, a sustentabilidade na construção civil passa necessariamente pelos canteiros de obras das empresas construtoras, que deve ser projetado e construído de forma que leve em consideração o menor impacto possível no terreno, no seu entorno ou vizinhança. O Programa de Sustentabilidade de Obras estabelece um padrão de sustentabilidade para as obras, através da implantação de um sistema de avaliação e de monitoramento do desempenho das obras, de modo a direcionar as estratégias e ações de engenharia das empresas construtoras para esse fim.
 

O que os participante absorveram de positivo para o desenvolvimento de sua profissão

         Para o presidente da Câmara do Desenvolvimento da Indústria da Construção (CDIC/FIESC), Hélio Bairros, o tema sustentabilidade não poderia ser mais oportuno e interessante, já que o setor tem preocupação muito forte com esta questão ser conciliada com os negócios e os aspectos ambientais. “É importante, pois é inconcebível cidades sem construção, sem planejamento, sem fiscalização, sem combate à informalidade. A sustentabilidade vai além do negócio em si, permeia toda a atividade urbana dos negócios da ação do poder público e do comportamento das entidades comunitárias”, destacou Bairros. Ele disse que ficou contente com a iniciativa e procurou parabenizar a diretoria do Sinduscon de Joinville, em especial o presidente Francisco Mauricio Jauregui pela iniciativa.

O diretor da Convisa, presidente do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável de Joinville e ex-secretário de Habitação da Prefeitura de Joinville, Ivandro Geraldo de Souza, assistiu atento às palestras ao lado do ex-prefeito Marco Tebaldi. Ele disse que fez questão de cumprimentar o coordenador do encontro e destacar pessoalmente que considerou o mesmo um sucesso que atingiu todos os objetivos.

Ivandro considera que iniciativas do gênero demonstram que o setor está alinhado com o que há de mais moderno em conceito em construção no mundo. “Foi instigante, fez o empresário refletir sobre as questões de sustentabilidade, embora em Joinville não seja tão novidade assim, pois muitos empresários já atuam nesta linha”, destaca Ivandro, que informa que o instituto que preside vem acompanhando o desenvolvimento estratégico há alguns anos.

         Para o empresário Alberto Mauro Bartholi, do Grupo Estrutura, o encontro foi importante para que os empresários catarinenses pudessem ter conhecimento de pessoas e ações praticadas em outro mercado. Ele revela que já tinha esta preocupação há algum tempo e vinha trabalhando nisso. “É uma questão mais cultural e as pessoas sempre têm uma certa dificuldade inicial em absorvê-las, tem que replicar estas técnicas sim”, sugere.

         O presidente do Sinduscon, Francisco Mauricio Jauregui, também considera que o nível das palestras foi muito bom e atendeu às expectativas, pois enquanto a palestra inicial de Zylbermann falou sobre a parte filosófica sobre o que é sustentabilidade, as demais ajudaram a orientar e mostrar que o custo da sustentabilidade não é um absurdo e ajuda a todos no final.