05.09.2011
Qualificação profissional nos canteiros de obra
Um dos setores mais beneficiados pela fase de crescimento da economia brasileira é a construção civil. Crédito disponível e programas de incentivo do governo federal, como Minha Casa, Minha Vida, impulsionaram o setor. Em um mercado tão efervescente, mão de obra tem se tornado artigo raro e mão de obra qualificada ainda mais escassa. Quem já não passou pela experiência de ter dificuldade em contratar um pedreiro para uma reforma simples ou conhece alguém que comprou um apartamento na planta e a entrega das chaves atrasou meses?
Talvez os investimentos em educação e cursos técnicos dos últimos anos não tenham sido suficientes para preparar o país para esse momento de crescimento econômico, e a escassez de mão de obra qualificada agora atinge também os canteiros de obra. Em abril, uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelou que 69% das empresas do país são afetadas pela falta de mão de obra qualificada. Por isso, 79% das companhias passaram a oferecer, elas mesmas, treinamentos para seus funcionários.
Ao primeiro olhar, isso pode parecer um ônus para a empresa. E, de fato, existem muitos empresários que pensam que “não vale a pena investir tempo e dinheiro para treinar profissionais que depois podem ir para os concorrentes e levar embora todo o conhecimento adquirido”. Eles não poderiam estar mais errados. O que tenho visto ao longo dos anos, prestando consultoria em gestão para as mais importantes empresas do país, é que os treinamentos internos são o melhor investimento que uma empresa pode fazer. Ampliar os conhecimentos dos funcionários pode influenciar significativamente os resultados e o crescimento da companhia.
Capacitar funcionários é economizar dinheiro. Treinar o profissional internamente é ensiná-lo a atender às necessidades específicas da sua companhia, direcionando-o aos resultados necessários. Outra grande vantagem do treinamento interno é a redução da rotatividade. Se os funcionários não ficam muito tempo na empresa, é sinal de que algo vai errado. O ambiente de trabalho não está sendo motivador o suficiente. É preciso que os empregados sintam que seu trabalho é visto e valorizado e que seu esforço tem importância para o todo.
Os benefícios do treinamento interno se aplicam a empresas de todos os segmentos e para a construção civil não é diferente. Felizmente, percebo que empresas começaram a se movimentar para melhorar esse quadro. Por exemplo, desde maio do ano passado, minha equipe tem prestado consultoria para a Cyrela. Fomos chamados porque a construtora sofria com um alto turnover de pessoal no nível operacional e por ausência de um padrão unificado de gestão de suas obras, o que afetava diretamente o andamento dos trabalhos e dificultava o processo decisório.
A partir desse diagnóstico, elaboramos um curso para 170 engenheiros que coordenam as obras, transmitindo-lhes técnicas de gestão na teoria e na prática, bem como o treinamento de 550 encarregados de obra, reforçando a supervisão dos trabalhos operacionais no dia a dia das obras. Paralelamente, desenvolvemos um software chamado Cockpit, que permite analisar custos, recursos e gastos online. Com o uso global desse sistema, conseguimos estabelecer um padrão de gestão para todas as obras da Cyrela no Brasil. Foram definidas ainda metas de produtividade para cada nível hierárquico – desta forma, os funcionários têm um objetivo a alcançar e sentem que os superiores acompanham seu trabalho com interesse. E, é claro, ao atingirem as metas estipuladas, também serão melhor remunerados.
Graças a essas mudanças, nos próximos três anos, estima-se que a Cyrela reduza custos e atrasos substancialmente. O tempo de construção das obras cairá significativamente. Atualmente, a Cyrela e a Living (empresa do Grupo Cyrela Brasil Realty) possuem juntas 207 empreendimentos em andamento. O exemplo da Cyrela é apenas um entre muitos outros que vejo no meu dia-a-dia, no entanto, demonstra uma atitude madura dos empresários brasileiros ao valorizar os profissionais dos canteiros de obra espalhados por todo o País, inclusive aqueles que ocupam cargos mais modestos.
Como otimista que sou, acredito no investimento em educação e qualificação das pessoas. Foco na competência das pessoas é o que pode auxiliar as empresas a atingir os objetivos e, ao mesmo tempo, a gerar empregos com melhores condições e contribuir para sanar o déficit habitacional, gerando riquezas para o País.